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Armadilha de Escalada: Guerra no Irã Põe à Prova Estratégia de Trump e Causa Caos Global

A Guerra no Irã, marcada pela morte do líder supremo Ali Khamenei e ataques aéreos dos EUA, é analisada pelo modelo da "Armadilha de Escalada" de Robert Pape. Apesar dos esforços, o conflito escalou, pressionando o presidente Donald Trump com sinais contraditórios e gerando disrupção histórica no petróleo e inflação global. Especialistas debatem os limites e a relevância do modelo para o cenário atual do Oriente Médio.

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Armadilha de Escalada: Guerra no Irã Põe à Prova Estratégia de Trump e Causa Caos Global
Foto: Reprodução / Leia Brasil
WASHINGTON, EUA -

A Guerra do Irã, iniciada em 28 de fevereiro no Oriente Médio, tem sido o epicentro de uma análise aprofundada por meio do modelo conhecido como Armadilha de Escalada, desenvolvido pelo norte-americano Robert Pape. O conflito, que já viu os Estados Unidos realizarem cerca de oito mil voos sobre o território iraniano e atingirem aproximadamente 7 mil a 7,8 mil alvos, resultou na morte do líder supremo da república islâmica, Ali Khamenei, e de parcela considerável da cúpula do regime. No entanto, mesmo com tais ações, os EUA parecem longe de atingir os objetivos inicialmente anunciados.

Os Desafios do Presidente Trump e o Impacto Global

O presidente Donald Trump, pressionado pela complexidade do cenário, emite sinais contraditórios. Ele afirma que os EUA “já venceram”, ao mesmo tempo em que solicita ajuda internacional para desobstruir o estratégico estreito de Ormuz. O presidente também tenta dissociar-se do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã, enquanto ameaça explodir as mesmas instalações caso haja novos ataques iranianos ao Catar. Economicamente, a guerra provocou a maior disrupção de oferta de petróleo da história, conforme a Agência Internacional de Energia (AIE), com o barril atingindo quase US$ 120 esta semana, gerando pressão inflacionária global e abalo nas cadeias produtivas.

A Armadilha de Escalada em Destaque

O modelo de Robert Pape, professor de Ciência Política na Universidade de Chicago e conselheiro estratégico de todos os presidentes dos EUA desde 2001, descreve uma sequência preocupante: uma potência agride com força limitada, a agredida reage expandindo o campo de batalha, e a agressora escala o conflito para recuperar a iniciativa. Pape, que simulou por 20 anos o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow – atingida por caças norte-americanos em junho de 2025 –, lançou uma newsletter sobre o tema dias antes do conflito. Ele está convencido de que o regime dos aiatolás está, paradoxalmente, mais forte hoje do que antes do início da Operação Fúria Épica. “O Irã no 17º dia [da guerra] é mais perigoso e mais poderoso do que antes de a primeira bomba cair”, afirmou Pape na terça-feira, 17 de março, ao canal India Today. O modelo de Pape foca na transição progressiva de menor para maior engajamento, a ilusão de controle e a relação entre escalada e desescalada, explicando como os esforços para controlar um conflito podem, na verdade, torná-lo mais difícil de controlar.

Análises Brasileiras sobre o Modelo

Érico Duarte, professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que o modelo de Pape, sintetizado em sua obra “Bombing to Win”, serve para informar o público americano sobre os custos de uma guerra. Duarte cita como limites do modelo o papel irrelevante atribuído à situação política que antecedeu o conflito e a dificuldade de sua aplicação a outros países além dos EUA, não contemplando, por exemplo, a situação de Israel diante do Irã. Segundo ele, a guerra no Golfo Pérsico tem várias camadas, envolvendo EUA, Israel e países como monarquias do Golfo, Turquia e até o Brasil. Os EUA, como principal potência, absorvem todos os custos e pressões.

Augusto Teixeira, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba, aponta como pontos fortes do modelo a ênfase nos limites do poder aéreo e a definição das operações terrestres como estágio seguinte de escalada. Teixeira sugere que, para evitar a escalada, seria necessário reduzir os objetivos políticos, oferecendo a Trump uma “off-ramp”, ou saída estratégica, que permita ao presidente declarar vitória sem realizar todos os propósitos iniciais. Ele destaca a importância da clareza e delimitação dos objetivos políticos, que, quando mutáveis, complicam o ajuste dos instrumentos militares para sua consecução. Para Teixeira, os EUA e seus auxiliares têm se referido a múltiplos objetivos, desde a mudança de regime até o fim do programa nuclear iraniano.

Futuro da Estratégia Norte-Americana

Na visão de Érico Duarte, os Estados Unidos já entraram em modo de controle e redução de danos no Golfo Pérsico, sendo improvável um envolvimento em larga escala como visto no Afeganistão e no Iraque. “Os EUA estão partindo para uma política de acomodação. Até podem aumentar as ameaças midiáticas e discursivas, mas não acho que queiram escalar a guerra do ponto de vista material”, afirma. Augusto Teixeira corrobora que a Armadilha da Escalada está intimamente ligada ao objetivo que Trump escolher como definitivo. Se for um objetivo minimalista, como a degradação da capacidade de projeção de força militar do Irã, o presidente poderá argumentar que, uma vez alcançado, é possível retrair a ação norte-americana, reconhecendo que toda guerra demanda estratégia, mas que esta é uma via de mão dupla, onde o outro ator também reage.

Escrito por Redação Leia Brasil