Crise Energética e Conflito no Oriente Médio Impactam Economia Global de Forma Desigual
O conflito no Oriente Médio desencadeia profundas e desiguais repercussões econômicas globais, com a alta de preços de energia afetando consumidores do Reino Unido ao Brasil e Paquistão. Enquanto nações como Noruega, Canadá, Rússia e EUA veem oportunidades de lucro pela crescente demanda por petróleo e gás, muitos países sofrem com inflação, interrupções no fornecimento e até racionamento. A Ásia, altamente dependente do petróleo do Oriente Médio, enfrenta riscos severos, embora China e Índia usem suas reservas e diplomacia para mitigar os impactos, evidenciando que o desfecho econômico dependerá da evolução do conflito e da resposta dos governos.

Produtores de Energia em Destaque.
Apesar de todos os esforços para impulsionar as energias renováveis, a dependência global de petróleo e gás permanece significativa. Com a alta dos preços, os países produtores de "ouro negro" tendem a lucrar, enquanto os consumidores arcam com os custos. No entanto, esta não é uma crise de preços de petróleo típica, pois o Oriente Médio continua sendo o centro do abastecimento e o Estreito de Ormuz, sua principal artéria. O impacto dos ataques à infraestrutura energética da região e o bloqueio de fato atingiram duramente produtores do Golfo Pérsico, como o Catar e a Arábia Saudita, com o Irã mantendo os aliados dos Estados Unidos em sua mira.
Beneficiários Inesperados e Vulnerabilidades.
Diante da busca por fontes alternativas, países como a Noruega e o Canadá podem se beneficiar. A Noruega, por exemplo, conseguiu aumentar sua produção de gás após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. O ministro da Energia do Canadá, Tim Hodgson, posicionou o país como um "produtor de energia estável, confiável, previsível e baseado em valores", embora existam questionamentos sobre sua capacidade real de aumentar a produção.
A Rússia, no entanto, poderá ser a maior beneficiária. Com Washington flexibilizando as normas para reduzir a escassez global de combustíveis, as vendas de petróleo russo para a Índia aumentaram em cerca de 50%. Estimativas indicam que Moscou poderá conseguir até US$ 5 bilhões adicionais até o final de março de 2026, encaminhando-se para fechar o ano com a maior receita obtida com a venda de combustíveis desde 2022. Além disso, a Indonésia surge como uma oportunidade atraente como grande exportador de carvão, cujo preço também está em alta.
A Situação dos Estados Unidos e Europa.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que, quando o preço do petróleo sobe, os Estados Unidos "ganham muito dinheiro". De fato, os produtores americanos de petróleo podem estar a caminho de ganhar dezenas de bilhões de dólares em receita adicional este ano, caso os preços do petróleo bruto se mantenham próximos dos níveis atuais. Contudo, isso não se traduz em lucros líquidos para o país. Primeiramente, alguns produtores estão fortemente expostos a interrupções, como a ExxonMobil, que detém operações em Ras Laffan, no Catar, onde a produção está paralisada desde o início de março e o local foi alvo de ataques iranianos, causando "extensos danos". Em segundo lugar, muitos produtores de petróleo de xisto não conseguem aumentar rapidamente sua produção. O mais importante é que, em termos per capita, os americanos são os maiores consumidores de petróleo e gás do planeta, tornando o país fortemente exposto à flutuação dos preços dos combustíveis fósseis. Economistas da Oxford Economics alertam que, se os preços do petróleo dispararem para US$ 140 por barril e se mantiverem, a economia correrá o risco de se contrair.
Os consumidores europeus, incluindo o Reino Unido, enfrentam uma vulnerabilidade semelhante devido à dependência de gás importado, o que representa um risco maior para o crescimento econômico e para a inflação. A evolução do mercado nas últimas semanas poderia adicionar cerca de 0,5% à taxa anual de inflação. A boa notícia é que o Ocidente, ao aumentar sua eficiência energética ao longo dos anos, está mais resiliente às flutuações de preço da energia do que no passado. No entanto, com petróleo e gás compondo mais da metade do consumo de energia em países como o Reino Unido, motoristas, faturas de aquecimento doméstico e setores com consumo intensivo de energia permanecem vulneráveis.
Ásia em Risco e Estratégias de Defesa.
A maior ameaça imediata recai sobre os clientes habituais do petróleo e do gás liquefeito que fluem para o leste, através do Estreito de Ormuz. A Ásia importa 59% do seu petróleo bruto do Oriente Médio, com a Coreia do Sul atingindo 70%. Com a queda dos preços das ações e a preocupação com interrupções no fornecimento, há alertas sobre o risco para a indústria de fabricação de chips da Coreia do Sul, que produz mais da metade dos chips de memória consumidos no mundo. Em outros locais, racionamento de combustível, semanas de trabalho de quatro dias e fechamento de centros educacionais são medidas adotadas por países como Sri Lanka, Bangladesh e as Filipinas.
Contudo, os maiores consumidores de energia do continente, China e Índia, conseguiram, até certo ponto, se manter à margem dessas dificuldades, graças ao planejamento e à diplomacia. A China conta com reservas equivalentes a vários meses de consumo e intensificou suas compras de petróleo iraniano. A Índia, por sua vez, aproveita a luz verde temporária para recorrer à Rússia como seu fornecedor.
O desenlace dependerá, em última instância, da evolução do conflito. No entanto, parece improvável que os Estados Unidos tivessem previsto totalmente algumas destas consequências econômicas, já que o país elaborou sua estratégia antes de iniciar os ataques ao Irã. Se a guerra se prolongar, maior será o risco — não só de prejuízos a países individuais, mas também de contágio e repercussões em escala global.