Desafiando previsões, África registra crescimento econômico robusto após cortes na ajuda externa dos EUA
No ano passado, a decisão do Presidente Donald Trump de fechar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) gerou alertas globais sobre uma catástrofe humanitária, especialmente na África, com previsões de milhões de mortes prematuras. Contudo, em 2025 e 2026, o continente africano surpreendeu ao registrar um notável crescimento econômico, com o FMI projetando que a África terá 11 das 15 economias que mais crescem globalmente em 2026. Essa resiliência é atribuída à menor dependência de ajuda externa, à diversificação de fontes de receita, ao investimento em tecnologias emergentes e à busca por novos mercados e parcerias comerciais, demonstrando uma notável capacidade de adaptação, apesar dos impactos significativos em contextos humanitários específicos.

WASHINGTON, EUA - No ano passado, a decisão do presidente Donald Trump de fechar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) representou um duro golpe para muitos países, virtualmente encerrando a ajuda externa e os programas de cooperação internacional mantidos por Washington. Com mais de US$ 80 bilhões (R$ 425 bilhões, na cotação atual) destinados em 2024, os Estados Unidos eram o principal financiador global de projetos de combate à fome, pobreza e doenças.
Ativistas e organizações internacionais previram que a medida seria catastrófica, especialmente para a África. Um relatório de 2025 na revista científica The Lancet alertou que os cortes poderiam levar a 14 milhões de mortes prematuras no continente até 2030. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros grupos humanitários tenham confirmado que alguns países registraram aumento de mortes devido ao fim de programas humanitários, a África como um todo não entrou em crise.
Crescimento econômico surpreendente no continente africano
Pelo contrário, o continente africano registrou crescimento econômico em 2025 e deve continuar a crescer em 2026. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), 11 das 15 economias com crescimento mais rápido no mundo em 2026 estarão na África, tornando-a a região de maior crescimento global. Landry Signé, copresidente do Grupo de Ação Regional para a África do Fórum Econômico Mundial, que estuda o desempenho das economias africanas após as medidas do presidente Donald Trump, afirmou que "muitos países africanos demonstraram uma resiliência que alguns poderiam considerar surpreendente".
A África não era tão dependente da ajuda externa como se pensava
Signé, professor da Universidade do Arizona e pesquisador da Iniciativa para o Crescimento da África do Brookings Institution, explicou em entrevista que, embora se acreditasse que a decisão de Trump e de países europeus de cortar a ajuda desencadearia uma catástrofe, o oposto ocorreu em muitos aspectos. Ele observou uma notável capacidade de adaptação e resposta dos países africanos. Há uma ideia equivocada de que a ajuda sustentou as economias africanas. Em 2023, a ajuda internacional ao desenvolvimento para a África foi de US$ 73,8 bilhões, menos que os US$ 90,8 bilhões em remessas, os US$ 97,1 bilhões em investimento estrangeiro direto e os US$ 479,7 bilhões em arrecadação tributária. A dependência da ajuda externa já vinha diminuindo antes mesmo dos cortes, com o número de países onde a ajuda superava 5% do PIB caindo de 27 em 2000 para 22 em 2022.
Muitos países africanos lideram em tecnologias emergentes. Maurício se destaca pelo amplo acesso à internet nas escolas e legislação de comércio eletrônico, o Quênia é referência em dinheiro móvel, e Ruanda se sobressai na entrega de suprimentos médicos com drones.
Impacto dos cortes na saúde e mobilização de recursos
Embora a África como um todo tenha demonstrado resiliência, os cortes na saúde foram particularmente devastadores. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre janeiro e outubro de 2025, 5.687 unidades de saúde em 20 contextos humanitários foram afetadas pela redução da ajuda, e aproximadamente 2.038 fecharam, reduzindo o acesso a serviços para 53,3 milhões de pessoas. Além disso, Médicos Sem Fronteiras relatou 652 mortes infantis por desnutrição em Katsina (Nigéria) nos primeiros seis meses de 2025 devido aos cortes.
No entanto, alguns países conseguiram se adaptar. Um mês após o anúncio do fechamento da USAID, a Nigéria mobilizou quase metade dos fundos que a agência havia disponibilizado. A sociedade civil e o setor privado também atuaram para preencher a lacuna, com iniciativas como a do Centro de Pesquisa e Projetos para o Desenvolvimento (dRPC), que, com apoio da Fundação Ford, financiou 17 ONGs nigerianas.
Desafios persistentes em países vulneráveis
Países como Somália, Libéria e República Centro-Africana, afetados por conflitos internos e fortemente dependentes de ajuda externa, estão na categoria de maior risco. O impacto sobre eles é muito mais forte, com aumento da insegurança alimentar, fome, deslocamento e doenças após a interrupção da ajuda humanitária. A União Europeia e o Japão destinaram recursos para a República Centro-Africana, e o Reino Unido enviou dinheiro para mitigar os efeitos da seca na Somália. Contudo, a forte dependência e as crises contínuas limitam sua capacidade de absorver o impacto.
Reorientação comercial frente às tarifas americanas
Os países africanos também lidaram com a turbulência causada pelas tarifas impostas pelo governo Trump. Embora alguns, como Lesoto, tenham sido afetados devido à sua dependência de exportações para os Estados Unidos, apenas 13 países destinam mais de 5% de suas exportações totais ao mercado americano. Muitos focaram em redirecionar sua produção e fortalecer relações comerciais com outros parceiros. A África do Sul, por exemplo, firmou um acordo para exportar produtos agrícolas para a China sem tarifas e buscou novos mercados na Indonésia, Vietnã, Malásia e Japão, priorizando o comércio intra-continental, que representou mais da metade de suas exportações agrícolas em 2025.