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Fernanda Montenegro Aos 96 Anos: Nova Comédia, Série e Reflexões Sobre Velhice e o Brasil

Aos 96 anos, a lendária Fernanda Montenegro demonstra vitalidade ímpar com o lançamento do filme "Velhos Bandidos" nesta semana, a série "Emergência 53" no próximo semestre, e uma turnê teatral em planejamento. A atriz compartilha suas reflexões sobre a velhice e a morte, inspirada em Cícero, além de abordar o Oscar e a complexa política cultural brasileira, destacando a importância da arte em tempos desafiadores.

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Fernanda Montenegro Aos 96 Anos: Nova Comédia, Série e Reflexões Sobre Velhice e o Brasil
Foto: Reprodução / Leia Brasil
BRASÍLIA, DF -

Aos 96 anos, Fernanda Montenegro demonstra uma vitalidade e uma agenda cultural invejáveis, repletas de novos projetos no cinema, na televisão e nos palcos. Longe de pensar em despedidas, a atriz continua a enriquecer o cenário artístico brasileiro com sua presença e suas reflexões.

Atividade Incansável aos 96 Anos

Na próxima semana, a lendária atriz lança a comédia "Velhos Bandidos", que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira, 25 de março de 2026. Para o próximo semestre, ela já tem confirmada a série "Emergência 53", focada no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Além disso, Fernanda Montenegro planeja uma turnê nacional com monólogos baseados em autores que admira, reforçando sua conexão inabalável com o público.

"Velhos Bandidos": Comédia com Senso Crítico

Dirigido por seu filho, Claudio Torres, "Velhos Bandidos" é uma comédia em que Fernanda Montenegro contracena com Ary Fontoura, interpretando um casal que decide assaltar um banco para reaver um dinheiro que lhes era devido. A atriz descreve o humor do filme como especial, não de "fazer cócegas", mas com um "certa justiça social", onde a bandidagem surge como a única saída para os personagens. O projeto é uma celebração da longevidade artística e da sensibilidade de Claudio Torres em reunir uma geração de atores "de 60 a quase 100" anos.

Reflexões Sobre a Morte e a Velhice, Inspirada em Cícero

Fernanda Montenegro aborda a velhice e a morte de forma corajosa, inspirada no filósofo romano Cícero e seu texto "Sobre a Velhice". Ela planeja levar esse texto aos palcos, motivada pela frase do pensador: "nós temos que olhar a morte de cima". Para a atriz, essa perspectiva significa reconhecer que "viver muito é também uma perda imensa" e ter esperança de que os entes queridos não faltem. A encenação seria uma forma de "ajudar a entender a partida".

O Brasil no Oscar: Uma Conquista, Não Uma Derrota

A atriz também refletiu sobre a crescente presença do Brasil no Oscar, tema que ganhou força entre os brasileiros. Referindo-se à sua própria indicação histórica, Fernanda Montenegro reitera que ser nomeado ao Oscar não é uma derrota, mas uma ascensão à "aristocracia cinematográfica". Ela lamenta a falta de investimento na cultura brasileira, mas exalta a "vocação" e a capacidade do cinema nacional de criar linguagem e estrutura, alcançando reconhecimento internacional mesmo com orçamentos limitados.

A Política Cultural Brasileira: Uma Análise Crítica

Em suas observações sobre a política cultural, Fernanda Montenegro descreveu o cenário atual como "complexo". Ela criticou a desconfiguração da cultura e a constante espera por atendimento em áreas essenciais como educação, saúde e cultura. A atriz alertou sobre a chegada de "uma proposta de um possível governo estrangulador" e aconselhou a pensar "duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo — talvez porque não tenha podido ser — ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte", em uma avaliação geral da cultura política brasileira.

O Teatro como "Casa": A Essência da Comunhão Humana

Para Fernanda Montenegro, o teatro é sua "casa", oferecendo uma "comunhão física" que o cinema e a televisão não conseguem proporcionar. Ela descreve a preparação de um personagem e a interação com o público como uma ponte necessária entre seres humanos. Mesmo em um cenário de "pré-guerra mundial", a atriz enfatiza a importância dessa conexão, destacando que "tudo na vida é uma ação teatral" e que a necessidade do ser humano com o outro é fundamental.

O Futuro é o Presente: Sabedoria de uma Sobrevivente

Apesar de reconhecer as limitações físicas impostas pela idade – "fisicamente eu já andei melhor, já vi melhor, já ouvi melhor" – Fernanda Montenegro afirma que, "por um milagre", acorda e canta "enquanto der". Ela compartilha sua filosofia de vida: "não tenho mais futuro" significa que "preciso viver o presente", pois "só vivendo o presente que a gente fica vivo para talvez chegar ao futuro". Sua resiliência a faz uma "sobrevivente", no melhor sentido do termo, lembrando a importância do público e de autores como Simone de Beauvoir e Nelson Rodrigues em sua jornada.

Escrito por Redação Leia Brasil