Mpox: OMS Alerta para Nova Cepa Recombinante e Ineficácia de Antiviral Chave
A Organização Mundial da Saúde (OMS) detectou uma nova cepa recombinante do vírus mpox, que é mais difícil de identificar por testes convencionais e pode estar mais disseminada globalmente. Simultaneamente, estudos clínicos robustos revelaram que o principal antiviral, tecovirimat, não é eficaz no tratamento de casos leves a moderados em adultos imunocompetentes, deixando uma lacuna terapêutica crucial, especialmente para grupos de alto risco. A situação exige o aprimoramento da vigilância genômica, a revisão dos protocolos de tratamento e a intensificação da prevenção, incluindo a vacinação.

GENEBRA, SUÍÇA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou em fevereiro deste ano a detecção de uma nova e preocupante cepa recombinante do vírus mpox. Esta variante, resultante da fusão de elementos das linhagens genéticas Clados Ib e IIb, levanta um novo nível de alerta global, especialmente após a constatação de que o principal antiviral utilizado contra a doença, o tecovirimat, mostrou-se ineficaz em ensaios clínicos robustos.
Nova Cepa: Recombinação e Desafios de Detecção
A nova cepa é uma combinação genética das linhagens Clado Ib, associada a surtos mais graves na África Central, e Clado IIb, ligada ao surto global de 2022. O maior desafio reside no fato de que os testes laboratoriais convencionais de PCR, usados para diferenciar clados, não conseguem caracterizar corretamente este novo vírus. Somente o sequenciamento genômico completo permitiu sua identificação no Reino Unido e na Índia. A OMS avalia que esta cepa provavelmente está mais disseminada do que os registros atuais sugerem, dado que os dois casos confirmados envolviam histórico de viagem internacional, indicando circulação em pelo menos quatro países e três regiões da OMS.
A distinção entre os clados é crucial: o Clado IIb apresentou letalidade inferior a 0,1% em países de alta renda, enquanto o Clado Ib é relacionado a quadros mais graves, com letalidade estimada de 3% a 5% em casos suspeitos e podendo chegar a 11% entre crianças e pessoas imunocomprometidas.
Falha do Tecovirimat em Ensaios Clínicos
No final de fevereiro, a publicação do ensaio clínico STOMP no New England Journal of Medicine ampliou a preocupação. Este estudo, que envolveu 344 adultos imunocompetentes com mpox confirmada do Clado 2, mostrou que o tecovirimat não reduziu o tempo de resolução das lesões, não aliviou a dor e não acelerou a eliminação do vírus em comparação com o placebo. A resolução clínica ocorreu em 83% dos pacientes tratados, percentual quase idêntico ao do grupo placebo (84%).
O achado foi reforçado pelo estudo PALM007, realizado na República Democrática do Congo, que chegou à mesma conclusão para o Clado 1. Juntos, esses dois ensaios enfraquecem a justificativa para o uso rotineiro do medicamento em adultos imunocompetentes. A lacuna terapêutica é ainda mais crítica para imunocomprometidos, gestantes e crianças, que são grupos de maior risco e não foram adequadamente contemplados nesses estudos.
Cenário no Brasil e Urgência de Ação
De janeiro de 2024 a maio de 2025, 26 países africanos notificaram mais de 139 mil casos suspeitos e cerca de 1.788 mortes. No Brasil, não houve mortes registradas em 2024 e 2025, mas a confirmação do Clado Ib em São Paulo, em março de 2025, alterou a natureza do risco, introduzindo a possibilidade de circulação de uma forma mais grave da doença, conforme informe semanal do Ministério da Saúde.
Diante deste cenário, a vigilância precisa incorporar o sequenciamento genômico de forma mais sistemática, pois o PCR convencional não identifica cepas recombinantes. Na assistência, os protocolos clínicos devem ser revistos urgentemente, dado que o tecovirimat não se sustenta como tratamento rotineiro para pacientes imunocompetentes, enquanto os grupos mais vulneráveis continuam necessitando de alternativas terapêuticas e acompanhamento cuidadoso. Do ponto de vista da prevenção, a vacinação dos grupos prioritários, utilizando o imunizante Jynneos (MVA-BN) ofertado pelo SUS no Brasil, não pode esperar um novo surto para ganhar escala.
Medidas de Prevenção e Novas Perspectivas
A vacinação com Jynneos, que demonstrou eficácia estimada de 70% a 85% na prevenção de casos sintomáticos, é direcionada a grupos com maior vulnerabilidade ou risco de exposição, como homens que fazem sexo com homens com múltiplos parceiros, profissionais do sexo, pessoas vivendo com HIV e trabalhadores da saúde. Além da vacinação, as medidas básicas de prevenção permanecem cruciais: evitar contato direto com lesões e buscar atendimento médico ao surgimento de lesões cutâneas, especialmente se acompanhadas de febre e aumento dos gânglios linfáticos após uma exposição de risco. No horizonte, uma vacina de mRNA desenvolvida pela Moderna apresentou resultados promissores em modelos animais, oferecendo uma nova esperança para o futuro.