Brasil: Envelhecimento Acelerado Exige Revolução na Saúde Pública com Foco em Prevenção
Com uma população idosa projetada para dobrar até 2050, o Brasil enfrenta um desafio sem precedentes na saúde pública. O número de idosos cresceu 71% entre 2010 e 2025, atingindo mais de 35,2 milhões. Especialistas alertam para a urgência de migrar de um modelo de saúde reativo, focado em doenças agudas, para um proativo, centrado na prevenção e no cuidado de condições crônicas e fragilidades. O SUS, que atende mais de 80% dos idosos, exige uma transformação que começa na atenção primária e na identificação precoce de riscos, como a síndrome da fragilidade, que afeta 38% dos brasileiros com mais de 50 anos.

O Brasil caminha para dobrar o número de pessoas acima dos 60 anos até 2050, projetando um cenário de mais de 65 milhões de idosos e impulsionando a necessidade urgente de uma transformação na saúde pública. A conquista de viver mais tempo trouxe o desafio de como cuidar de uma população que convive por mais anos com doenças crônicas, limitações funcionais e demandas complexas de saúde.
A velocidade dessa transformação é notável: entre 2010 e 2025, o número de idosos no país saltou 71%, passando de 20,5 milhões para mais de 35,2 milhões, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esse ritmo é mais acelerado do que o observado em países desenvolvidos, como destaca o médico de família e comunidade Rafael Herrera Ornelas, diretor de Atenção Primária e Rede Assistencial do Einstein Hospital Israelita. “Estamos envelhecendo ainda mais rapidamente do que países desenvolvidos envelheceram. Isso significa que temos menos tempo para nos adaptar, inclusive o sistema de saúde, a uma nova realidade demográfica e epidemiológica”, afirma Ornelas.
A mudança demográfica altera o perfil epidemiológico que chega aos serviços de saúde. Segundo o geriatra Leonardo Oliva, presidente da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), o sistema, historicamente voltado para doenças agudas e infecciosas, precisa migrar o foco para doenças crônicas, dependência funcional e incapacidades.
Nas próximas décadas, prevê-se um aumento significativo de casos de hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares e demências, além de uma crescente parcela de pessoas com múltiplas condições simultâneas. Essa realidade exige que o modelo de cuidado passe de reativo para proativo, identificando riscos precocemente e intervindo antes das agudizações, conforme explica Ornelas.
Mais de 80% dos brasileiros acima de 60 anos dependem do SUS (Sistema Único de Saúde), segundo o Elsi-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros) da Fiocruz em parceria com a UFMG. A pressão sobre o sistema público não se deve apenas ao aumento do número de idosos, mas ao fato de que muitos envelhecem com doenças preveníveis e incapacidades acumuladas ao longo da vida, aponta o médico epidemiologista e gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil.
Especialistas defendem que a preparação do sistema para o envelhecimento vai além de ampliar leitos ou contratar mais profissionais. É crucial agir décadas antes do surgimento das doenças, fortalecendo a prevenção e a promoção da saúde, incluindo educação de qualidade e a valorização do idoso na sociedade.
A Síndrome da Fragilidade e Seus Impactos
A ‘fragilidade’ é uma palavra central no debate sobre envelhecimento, explicando parte significativa da pressão nos serviços de saúde. Caracterizada pela redução das reservas fisiológicas, a síndrome faz com que o corpo perca a capacidade de responder a situações que antes seriam facilmente superadas. “Uma infecção urinária, por exemplo, pode ser algo simples para uma pessoa saudável. Em um indivíduo frágil, pode levar a hospitalização, incapacidade e até a morte”, explica Oliva.
Um estudo publicado na Scielo Brasil em 2025, com dados da 2ª onda do Elsi-Brasil (2019-2021) e quase 10.000 pessoas com 50 anos ou mais, estimou que cerca de 38% dos participantes apresentavam algum grau de fragilidade. A pesquisa associou diretamente a fragilidade a uma maior utilização dos serviços de saúde, com pessoas mais frágeis relatando pior estado de saúde, mais internações e maior procura por atendimento médico.
Os impactos da fragilidade estendem-se à capacidade de realizar tarefas diárias, como tomar banho, alimentar-se, vestir-se ou administrar medicamentos. A principal oportunidade reside na identificação precoce dos sinais, antes que a fragilidade se manifeste em internações ou perdas funcionais importantes, como sugere Rafael Ornelas.
A Atenção Primária como Eixo Central da Saúde do Idoso
A atenção primária é apontada como a principal ferramenta para enfrentar o envelhecimento populacional. As UBSs (Unidades Básicas de Saúde) ocupam uma posição estratégica, pois acompanham os indivíduos ao longo do tempo, conhecem seu contexto de vida, estabelecem vínculos e identificam riscos antes que se tornem emergências.
“O idoso precisa de cuidado contínuo, coordenado e próximo da comunidade. A atenção primária é o ponto da rede com maior capacidade de organizar esse cuidado, ordenar fluxos, acompanhar condições crônicas, identificar fragilidade e, quando necessário, encaminhar de forma adequada”, afirma o diretor do Einstein, que faz a gestão de 14 UBSs em São Paulo, em parceria com o SUS desde 2001.
Um sistema de saúde organizado evita complicações e o uso desnecessário de serviços, reduzindo internações e melhorando a adesão ao tratamento. Ornelas destaca a necessidade de planos de cuidado compartilhados, protocolos assistenciais integrados e sistemas de informação que garantam a continuidade da informação clínica entre os diferentes níveis de atenção.
Ações do Ministério da Saúde para o Envelhecimento
A estratégia de colocar a atenção primária como eixo central já é adotada pelo SUS. Em nota à Agência Einstein, o Ministério da Saúde informou que a principal diretriz é a PNSPI (Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa), focada na promoção da autonomia e da capacidade funcional. Para sua aplicação, o prontuário eletrônico do SUS incorporou o IVCF-20 (Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional), ferramenta que auxilia as equipes a identificar idosos vulneráveis e planejar melhor os cuidados.
O ministério também utiliza dados do Elsi-Brasil para orientar políticas públicas e desenvolver programas específicos para doenças crônicas, demências e atenção domiciliar. Entre os exemplos, estão o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, a Estratégia de Saúde Cardiovascular, a Estratégia Viva Mais Brasil e o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, lançado em 18 de junho.
Algumas experiências já testam modelos de cuidado adaptados à nova realidade demográfica, como o PAI (Programa Acompanhante de Idosos), desenvolvido pela Prefeitura de São Paulo em UBSs como Campo Limpo e Parque Regina, administradas pelo Einstein. Muitos idosos ainda enfrentam dificuldades financeiras, isolamento social, perda de autonomia, barreiras de mobilidade e falta de suporte.