Brasília

Diagnóstico de autismo no Brasil é mais precoce, mas mães enfrentam desafios, revela levantamento inédito

Pesquisa 'Mapa do Autismo no Brasil', do Instituto Autismos, revela que a idade média do diagnóstico de autismo no país se alinha aos padrões internacionais, em torno dos 4 anos, o que favorece tratamentos eficazes. Contudo, o levantamento inédito destaca que a maior parte das cuidadoras são mulheres que, muitas vezes, saem do mercado de trabalho. O governo federal, por sua vez, anunciou investimento de R$ 83 milhões e a habilitação de 59 novos serviços para ampliar a assistência a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Compartilhe
Ouvir AnáliseNarrado por IA
Diagnóstico de autismo no Brasil é mais precoce, mas mães enfrentam desafios, revela levantamento inédito
Foto: Reprodução / Leia Política
BRASÍLIA, DF -

Um mapeamento inédito do Instituto Autismos revela que o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil tem se dado mais cedo, alcançando a média de 4 anos de idade, o que alinha o país aos padrões internacionais e promete maior eficácia nos tratamentos. No entanto, o "Mapa do Autismo no Brasil", que coletou dados de mais de 23 mil pessoas, também expõe os desafios enfrentados por mães que são as principais cuidadoras e frequentemente precisam deixar o mercado de trabalho para se dedicar aos filhos.

História de Família Reflete Desafios e Conquistas

A advogada Anaiara Ribeiro, 43 anos, personifica a dedicação dessas mães. Ela se emocionou ao ver o filho João, 18 anos, ingressar no curso de Jornalismo em Brasília (DF), o que era um sonho. Anaiara se matriculou junto ao filho e, após o diagnóstico de autismo leve a moderado de João aos 8 anos, pediu demissão e tornou-se autônoma para garantir o sustento e o cuidado integral. A vida da advogada, marcada por um divórcio, reflete a realidade de muitas mulheres brasileiras que assumem sozinhas o cuidado de pessoas com autismo, conforme apontado pela pesquisa.

Detalhes do Levantamento Nacional

O "Mapa do Autismo no Brasil" é uma iniciativa da organização não governamental Instituto Autismos e contou com a participação de 23.632 pessoas de todos os estados brasileiros. Destas, 18.175 são responsáveis por pessoas autistas, 2.221 por quem está no espectro e 4.604 são pessoas autistas acima de 18 anos. Os dados completos e detalhados do estudo serão publicados oficialmente na próxima quinta-feira, 9 de abril de 2026, uma semana após o Dia de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril.

Mães Cuidadoras e o Impacto no Mercado de Trabalho

A presidente do Instituto Autismos e musicoterapeuta, Ana Carolina Steinkopf, destacou um dos principais achados: “A maior parte das cuidadoras são mulheres. E grande parte dessas mulheres não estão no mercado de trabalho. Isso fala muito sobre o cuidado”. Steinkopf, no entanto, ressaltou que o caso de João, diagnosticado aos 8 anos, representa um avanço em relação ao passado, visto que a média atual se aproxima dos 4 anos de idade, idade crucial para o início de terapias mais eficazes.

Custos de Terapias e Suporte Governamental

O levantamento também alerta que as famílias gastam mais de R$ 1.000 mensais com terapias, sendo que a maioria utiliza planos de saúde para acesso a esses serviços. Famílias das regiões Norte e Nordeste, porém, dependem mais da estrutura do SUS. Diante desse cenário, o governo federal anunciou, em 2 de abril de 2026, um investimento de R$ 83 milhões para ampliar a assistência a pessoas com TEA, com a habilitação de 59 novos serviços, incluindo Centros Especializados em Reabilitação (CER), oficinas ortopédicas e transporte adaptado. O ministro Alexandre Padilha afirmou que a iniciativa visa estruturar uma rede mais preparada no SUS, desde a identificação precoce até o atendimento especializado.

Recomendações e Conscientização

A pesquisadora Ana Carolina Steinkopf informou que entes federais e estaduais receberão recomendações com base nos resultados do estudo para melhoria do atendimento. Ela também observa um aumento contínuo da sensibilização e conscientização sobre o autismo no Brasil, onde a estimativa do IBGE é de 2,4 milhões de pessoas autistas. Um diagnóstico precoce é fundamental para que as famílias acessem direitos como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e garantam a inclusão na educação, saúde e bem-estar, conforme exemplificado pelas conquistas de Anayara e João, que hoje desfrutam de inclusão em espaços de lazer.

Apesar das dificuldades, Anayara conseguiu reconstruir sua família, casando-se novamente e tendo outra filha. Ela reconhece que sua situação é uma exceção, já que muitas mães de pessoas autistas permanecem solteiras ou separadas, com pais que abandonam o cuidado físico e financeiro. “Tive a sorte de encontrar um parceiro que assumiu a paternidade do João. Somos muito felizes”, concluiu a advogada.

Escrito por Redação Leia Política