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Estudo revela disparidade regional no diagnóstico de doenças imunológicas raras no Brasil

Um estudo recente aponta grave disparidade regional no acesso a tecnologias de sequenciamento de DNA para o diagnóstico de erros inatos da imunidade no Brasil. Apesar de avanços globais na identificação dessas doenças raras, a limitação de infraestrutura e reembolso no SUS resulta em diagnósticos tardios e agravamento de casos, perpetuando desigualdades. O Ministério da Saúde, em fevereiro de 2026, anunciou a incorporação de exames de sequenciamento no SUS, um passo crucial para mudar este cenário.

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Estudo revela disparidade regional no diagnóstico de doenças imunológicas raras no Brasil
Foto: Reprodução / Leia Política
BRASÍLIA, DF -

Uma análise profunda da literatura científica revela uma preocupante disparidade regional no Brasil no tratamento de patologias que afetam o sistema imunológico, especialmente os erros inatos da imunidade (EII). Estas doenças raras, que afetam o sistema imunológico, podem levar a imunodeficiência, doenças autoimunes, infecções graves ou incomuns, inflamação crônica, alergias intensas e aumento do risco de câncer, impactando significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

O Que São os Erros Inatos da Imunidade?

Os erros inatos da imunidade representam um grupo amplo e complexo de doenças genéticas. Na América Latina, a prevalência estimada era de 1 em cada 10.000 indivíduos. Contudo, avanços em técnicas de sequenciamento de DNA indicam que esse número pode ser bem maior, com estimativas globais variando de 1 em 1.000 a 1 em 5.000 pessoas, refletindo uma maior capacidade de diagnóstico. Nas últimas décadas, mais de 500 genes já foram identificados como causadores dessas condições, que podem ser herdadas de diferentes formas — autossômica dominante, autossômica recessiva ou ligada ao cromossomo X — e apresentam manifestações clínicas diversas, tornando o diagnóstico desafiador devido à penetrância genética variável.

A Revolução do Sequenciamento de DNA e o Desafio no Brasil

O sequenciamento de nova geração revolucionou a identificação dessas doenças ao permitir a análise rápida e detalhada de grandes porções do DNA, aumentando a taxa de diagnóstico molecular em comparação com métodos mais tradicionais como o sequenciamento de Sanger. Apesar desses avanços tecnológicos, a disponibilidade dessas tecnologias no Brasil ainda é limitada. Essa restrição dificulta o diagnóstico precoce, o acesso a tratamentos personalizados e o aconselhamento genético adequado para pacientes e suas famílias.

Uma revisão sistemática da literatura científica, que analisou estudos em bases como PubMed, SciELO, Embase e Scopus, identificou apenas 10 publicações sobre o uso de tecnologias de sequenciamento de nova geração para diagnóstico de EII no Brasil. A maioria desses estudos foi conduzida em grandes centros médicos dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, que concentram serviços de referência para doenças raras credenciados pelo Ministério da Saúde, evidenciando uma lacuna na produção científica nacional e uma desigualdade na distribuição de recursos e infraestrutura em saúde.

Mesmo nos centros de referência, a implementação de um portfólio amplo de testes genéticos enfrenta desafios. Adicionalmente, o SUS (Sistema Único de Saúde) não reembolsa a maior parte dos testes genéticos, resultando em custos arcados integralmente pelos pacientes e suas famílias que buscam alternativas. Consequentemente, cerca de 75% da população brasileira, que depende exclusivamente do SUS, tem acesso limitado a diagnóstico genético abrangente e tratamento adequado, contribuindo para a manutenção de desigualdades regionais e sociais.

Consequências do Diagnóstico Tardio

A lacuna no acesso à tecnologia e na produção científica tem um impacto clínico direto na vida dos pacientes. O acesso tardio ao diagnóstico baseado em sequenciamento de DNA pode atrasar intervenções potencialmente salvadoras, como o transplante de células-tronco hematopoéticas. Esse procedimento pode ser curativo para algumas dessas doenças, especialmente quando realizado precocemente em condições graves, como a imunodeficiência combinada grave. Nesses casos, o diagnóstico molecular precoce é essencial para orientar o transplante no momento adequado, aumentando significativamente as chances de sucesso do tratamento e sobrevida.

Iniciativas Nacionais e Avanços Recentes

Nos últimos anos, o Brasil tem avançado na incorporação da genômica à saúde. Iniciativas como o Programa Genomas Brasil têm impulsionado a medicina de precisão, contribuindo para maior acurácia diagnóstica. A Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras, instituída em 2014, estabeleceu serviços de referência e redes de atenção especializada no SUS, embora ainda estejam concentrados principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste. Outras iniciativas incluem a Rede Brasileira de Doenças Raras (Raras), em 2020, e a Rede Nacional de Genômica para Erros Inatos da Imunidade (Renomieii), que integra 20 instituições de saúde e pesquisa, utilizando abordagens ômicas para melhorar o diagnóstico e tratamento.

Em fevereiro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou um marco importante: a implementação de exames de sequenciamento de exoma no SUS. Esses exames serão realizados no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fiocruz, e no Instituto Nacional de Cardiologia. Ambas as instituições já abrigam centros de referência para doenças raras e agora terão a capacidade de converter a ciência em saúde para a população.

Barreiras e o Caminho a Seguir

Apesar dos avanços, ainda existem barreiras para a implementação dessas tecnologias em larga escala. Diferenças entre plataformas de sequenciamento, métodos de análise e padrões de relatório dificultam a padronização dos resultados. Além disso, a baixa representatividade da população brasileira em bancos de dados genômicos internacionais limita a interpretação de variantes genéticas. Nesse contexto, iniciativas nacionais como o banco Abraom e o projeto DNA do Brasil, que reúnem dados genômicos de populações brasileiras, são fundamentais para melhorar a precisão dos diagnósticos.

O potencial das tecnologias de sequenciamento de DNA para transformar o diagnóstico e o tratamento de doenças raras no Brasil é imenso. No entanto, para que esse potencial se concretize, é essencial ampliar o acesso a essas tecnologias, reduzir as desigualdades regionais e fortalecer a integração entre pesquisa e o sistema de saúde. Sem esses avanços, o país corre o risco de aprofundar desigualdades, em que apenas uma parcela da população se beneficia da medicina de precisão.

Escrito por Redação Leia Política