IPCA de junho desacelera e mercado aposta em continuidade dos cortes de juros
A inflação medida pelo IPCA em junho ficou em 0,16%, abaixo do esperado, e o Boletim Focus reduziu pela segunda vez consecutiva a projeção para 2026. A desaceleração dos preços, impulsionada por alimentos e combustíveis, fortalece a expectativa de que o Banco Central manterá o ciclo gradual de cortes da taxa básica de juros, a Selic, nas próximas reuniões.

BRASÍLIA, DF - A inflação brasileira desacelerou significativamente em junho, com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrando uma alta de apenas 0,16%. O resultado, que veio abaixo da expectativa de 0,31% do mercado, foi divulgado em meio à segunda revisão consecutiva para baixo da projeção de inflação para 2026 no Boletim Focus. Esse cenário reforça a percepção de que o Banco Central (BC) tem margem para prosseguir com o ciclo gradual de cortes da taxa básica de juros, a Selic, nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).
Desaceleração Geral e Revisão das Expectativas
No acumulado de 12 meses, a inflação apresentou uma queda de 4,72% para 4,64%. Em resposta a essa melhora, o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (13.jul.2026), ajustou a estimativa do IPCA para 2026 de 5,19% para 5,16%, marcando a segunda redução consecutiva. As projeções para 2027 e 2028, por sua vez, permaneceram estáveis, indicando uma melhora gradual, embora ainda acima da meta estabelecida pelo BC.
A combinação de uma inflação corrente mais baixa e a revisão das expectativas do mercado fortalece a avaliação de que o processo de desinflação ganhou consistência na economia brasileira.
Fatores que Contribuíram para a Queda
A principal surpresa veio do setor de alimentação. Os preços dos alimentos consumidos em casa recuaram em junho, revertendo a alta observada em maio. Itens como café, carnes e frutas ficaram mais baratos, contribuindo decisivamente para que o IPCA ficasse abaixo do esperado. A alimentação também ajudou a desacelerar os preços fora do domicílio, aliviando a pressão sobre o grupo de serviços.
Além disso, houve queda nos preços dos combustíveis, enquanto medicamentos e tarifas de água e esgoto também apresentaram resultados abaixo do previsto. O segmento de bens industriais igualmente registrou um desempenho considerado favorável.
Análise dos Especialistas
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, destacou a "qualidade da composição" do IPCA. "O qualitativo veio bom, com surpresa nos núcleos. Grande parte da surpresa foi a alimentação, que também ajudou serviços subjacentes via alimentação fora. O segmento de industriais também registrou resultado abaixo", declarou. Para ela, o dado "corrobora a visão de virada do balanço de riscos da inflação para 2026 e o potencial de estabilidade ou leve viés de queda do Focus para 2028".
Gabriel Pestana, economista-sênior da Genial Investimentos, ressaltou que a surpresa foi relevante por atingir componentes mais persistentes da inflação. "A composição foi favorável, com resultados melhores em alimentação, serviços e preços administrados. Além disso, a surpresa não ficou restrita a poucos itens voláteis, alcançando componentes importantes e mais persistentes da inflação", afirmou. Ele vê os dados melhorando o cenário para a próxima reunião do Copom, em 4 e 5 de agosto, "abrindo espaço para o Banco Central dar continuidade ao ciclo de cortes". A Genial mantém a projeção da Selic em 14% para o fim de 2026, mas avalia que o resultado de junho aumenta a probabilidade de uma taxa ainda menor.
Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, apontou junho como um marco importante na dinâmica dos preços, com desaceleração disseminada. "Serviços e, notadamente, os serviços subjacentes apresentaram desaceleração relevante na margem, reduzindo os temores de persistência que marcaram os meses anteriores", disse. Para ele, o conjunto dos indicadores "melhora o balanço de riscos macroeconômicos e fornece um cenário mais confortável para a condução da política monetária".
Riscos e Cautela à Frente
Apesar da melhora, os economistas alertam que é cedo para considerar a inflação sob controle definitivo. O cenário fiscal doméstico e a proximidade das eleições são apontados como fatores de risco. No âmbito externo, a recente alta do petróleo, impulsionada por tensões no Oriente Médio, segue no radar e pode voltar a pressionar preços nos próximos meses.
Diante dessas incertezas fiscais e externas, a avaliação predominante é de que o Banco Central deverá manter uma postura gradual e cautelosa na condução de sua política monetária, mesmo com os dados favoráveis do IPCA de junho.