Operação russa de desinformação visou governo Milei na Argentina
Um grupo de espionagem russo conduziu uma campanha midiática e política na Argentina, entre junho e outubro de 2024, para desacreditar o governo do presidente Javier Milei, desembolsando ao menos US$ 283.100 em publicações. Mais de 250 conteúdos foram disseminados em plataformas digitais argentinas. A operação foi encerrada após o distanciamento dos EUA e da Argentina da Ucrânia, perdendo seu objetivo principal com a posse do presidente Donald Trump em janeiro de 2025. O caso está sob análise da Justiça argentina.

Detalhes da Operação e Financiamento.
Um levantamento identificou mais de 250 conteúdos publicados em mais de 20 plataformas digitais argentinas. Os documentos, que totalizam 76 registros e 1.431 páginas, detalham as atividades de um grupo denominado “A Companhia” na África e América Latina. Essas informações foram divulgadas pelo jornal El País e por uma associação internacional de mídia. O relatório de inteligência foi inicialmente vazado pelo The Continent, da África do Sul, e compartilhado com um consórcio que inclui openDemocracy (Grã-Bretanha), Dossier Center e iStories (Rússia), All Eyes on Wagner e Forbidden Stories (França), além do site Filtraleaks (Argentina) e jornalistas independentes russos.
Contexto e Fim da Campanha.
A campanha russa na Argentina teve início poucos meses após a posse de Milei em dezembro de 2023, período em que sua relação com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (Servo do Povo, centro), era central para a política externa argentina. No entanto, a dinâmica mudou drasticamente após a posse do presidente norte-americano Donald Trump (Partido Republicano) em janeiro de 2025. Com os Estados Unidos se distanciando da Ucrânia, a Argentina seguiu o mesmo caminho, e a campanha russa de desinformação perdeu seu objetivo principal, sendo então encerrada.
Estratégias e Táticas Utilizadas.
A estratégia do grupo consistia em criticar o governo de Milei através de uma mistura de notícias verdadeiras e falsas, com o intuito de gerar divisões internas e incentivar conflitos com países vizinhos, segundo o Filtraleaks, liderado pelo jornalista Santiago O’Donnell. A análise dos conteúdos revelou que fotos de supostos autores eram frequentemente provenientes de bancos de imagens ou criadas por inteligência artificial. Os temas abordados incluíam cortes na educação, redução de salários e tensões com governos progressistas da região. Cada artigo publicado recebeu valores que variavam entre US$ 350 e US$ 3.100, um montante significativo comparado ao salário médio de um jornalista local, estimado em US$ 700. Além dos gastos com publicações, os registros financeiros indicam despesas adicionais de US$ 343 mil na Argentina, destinadas à coleta de informações, organização do trabalho no território e outras despesas de logística e inteligência.
Reações Oficiais e Investigação.
A Embaixada da Rússia na Argentina classificou a investigação como “material antirrusso” e negou haver evidências. Por outro lado, o chanceler argentino, Pablo Quirno, declarou que os fatos estão sob análise da Justiça para a devida determinação de responsabilidades. A Secretaria de Inteligência de Estado (SIDE) da Argentina já havia denunciado a operação à Justiça em outubro de 2024.