Praga da Cigarrinha-do-Milho Causa Prejuízo de US$ 25,8 Bilhões ao Brasil em 4 Anos
Um estudo inédito revela que a cigarrinha-do-milho, principal praga da agricultura brasileira, gerou uma perda média anual de 22,7% na produção de milho entre 2020 e 2024, culminando em um prejuízo acumulado de US$ 25,8 bilhões. A pesquisa, conduzida por Embrapa, Epagri e CNA, destaca a urgência de políticas públicas para mitigar o impacto da praga, que eleva custos e afeta a balança comercial do país.

A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), considerada a principal praga da agricultura brasileira, provocou um prejuízo bilionário à produção nacional entre 2020 e 2024. Um estudo inédito quantificou que o Brasil perdeu, em média, 22,7% de sua safra de milho anualmente devido aos enfezamentos transmitidos por esse inseto-vetor. As perdas anuais atingiram cerca de US$ 6,5 bilhões, totalizando US$ 25,8 bilhões em quatro safras, o equivalente a aproximadamente 2 bilhões de sacas de 60 quilos que deixaram de ser produzidas.
Detalhes e Metodologia do Estudo.
Para chegar a esses resultados, os pesquisadores analisaram dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) referentes às séries históricas de produtividade, produção de grãos e área plantada de milho desde 1976. As estimativas das perdas econômicas associadas aos enfezamentos foram realizadas nas principais regiões produtoras do grão no Brasil.
As conclusões foram publicadas na revista internacional Crop Protection. O estudo detalha como os enfezamentos e a cigarrinha-do-milho evoluíram de um problema secundário para o maior desafio sanitário do sistema produtivo de milho no Brasil nas últimas décadas. A pesquisa foi conduzida pela Embrapa Cerrados (DF), Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Além dos dados estatísticos, foram utilizadas informações coletadas pelo projeto Campo Futuro, uma iniciativa da CNA e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Levantamentos foram conduzidos em 34 municípios representativos das principais regiões produtoras do Brasil, reunindo produtores rurais e especialistas que, por consenso técnico, identificaram e estimaram as perdas associadas à cigarrinha-do-milho e ao complexo de enfezamentos em cada município e safra.
Impacto Financeiro e Variações.
Na 1ª safra analisada (2020/2021), o impacto foi mais acentuado, com 28,9% de perda na produção. Na safra 2023/2024, houve uma redução para 16,7%. Contudo, o gasto com aplicação de inseticidas para controle da cigarrinha subiu 19% nessas quatro safras, superando US$ 9 por hectare e elevando significativamente o custo de produção para o agricultor.
Charles Oliveira, pesquisador da Embrapa Cerrados e autor do estudo, aponta que “Os resultados indicam que os enfezamentos do milho levaram a uma perda média de 31,8 milhões de toneladas por ano”. Em cerca de 80% das localidades avaliadas, a cigarrinha ou os enfezamentos foram apontados como fator central para a queda de produtividade.
Agravamento do Problema e Contexto Histórico.
Atualmente, os dois tipos de enfezamentos – o pálido (Spiroplasma kunkelii) e o vermelho (Candidatus Phytoplasma asteris) – representam a maior ameaça fitossanitária à produção brasileira de milho. Ambas as doenças são causadas pela cigarrinha-do-milho, que também transmite os vírus do mosaico-estriado e da risca do milho. De acordo com o pesquisador da Embrapa, o problema é agravado pela ausência de tratamento preventivo para essas doenças, que podem ocasionar a perda total, especialmente em lavouras cultivadas com híbridos suscetíveis.
Embora os patógenos sejam conhecidos desde a década de 1970, surtos epidêmicos tornaram-se frequentes a partir de 2015. Charles Oliveira detalha que “Mudanças no sistema de produção ocorridas nas últimas décadas, como a expansão da safrinha e o cultivo de milho durante quase todo o ano, criou um cenário favorável para a sobrevivência da cigarrinha e dos microrganismos”.
A série histórica da produção do milho no Brasil mostra que, após pouca variação na área plantada entre 1976/1977 e 2011/2012, houve crescimento a partir da safra de 2015/2016, com um pico de 22,3 milhões de hectares em 2022/2023. O aumento da produtividade e da produção total foi impulsionado pela adoção do milho de 2ª safra e novas tecnologias, como culturas geneticamente modificadas. Contudo, o surgimento dos surtos de enfezamentos a partir de 2014/2015 causou declínios severos na produtividade nacional.
Impacto Econômico e Necessidade de Políticas Públicas.
Larissa Mouro, coordenadora do Campo Futuro, enfatiza a importância do estudo para o setor produtivo: “Esse histórico permitiu gerar uma estimativa econômica consistente e com abrangência nacional”. Tiago Pereira, assessor técnico da CNA, ressalta que “Estamos falando de perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do País. O diferencial desse estudo é transformar essa percepção recorrente em números, com base científica”.
O Brasil é o 3º maior produtor mundial de milho e um dos principais exportadores, com uma estimativa de produção de 138,4 milhões de toneladas e valor de cerca de US$ 30 bilhões para a safra 2025/2026, segundo a Conab. O impacto dos enfezamentos ultrapassa a porteira da fazenda, elevando os preços para o consumidor e afetando a balança comercial brasileira, visto que o milho é base para a produção de proteína animal e biocombustíveis.
A cigarrinha-do-milho possui alta capacidade de reprodução e dispersão, sendo uma espécie de difícil manejo. O controle biológico com fungos entomopatogênicos tem se mostrado uma alternativa a ser associada ao controle químico, especialmente porque algumas populações da praga já apresentam resistência a certos inseticidas. A pesquisa recomenda a adoção de um conjunto de práticas, uma vez que o controle baseado exclusivamente em inseticidas químicos é insuficiente.
Segundo a pesquisadora da Epagri, Maria Cristina Canale, estimar as perdas econômicas na agricultura causadas por pragas e doenças é essencial para o desenvolvimento de políticas públicas mais efetivas. “Com informações sobre perdas agrícolas do milho causadas por doenças, é possível orientar a destinação de recursos financeiros, orientar o setor de seguro agrícola, definir janelas de plantio, planejar estratégias para mitigar os danos causados por essas doenças e avaliar a eficácia das práticas adotadas pelo setor produtivo”, conclui.