Domo de Runit: O Túmulo Radioativo que o Nível do Mar Ameaça Romper
O Domo de Runit, nas Ilhas Marshall, uma estrutura que contém mais de 120 mil toneladas de detritos nucleares, está rachando. Com o avanço do nível do mar, cientistas alertam para o risco iminente de vazamento de plutônio-239 no Oceano Pacífico, ameaçando comunidades locais. Especialistas exigem monitoramento urgente e que os Estados Unidos assumam a responsabilidade pela limpeza definitiva deste legado tóxico, agravado pelas mudanças climáticas.

Uma ameaça silenciosa e radioativa paira sobre o Oceano Pacífico. Localizado na Ilha Runit, no Atol de Enewetak, o Domo de Runit, popularmente conhecido como “O Túmulo”, é uma estrutura de 115 metros de diâmetro construída sobre uma cratera de uma explosão nuclear de 18 quilotons de 1958. Este monumento ao esquecimento abriga mais de 120 mil toneladas de solo e detritos contaminados por testes nucleares americanos, mas décadas após sua construção, a integridade do domo está seriamente comprometida.
A História e o Conteúdo do "Túmulo"
Entre 1977 e 1980, os militares americanos preencheram a cratera do teste “Cactus” com material radioativo e a cobriram com uma tampa de concreto. A intenção era simples: enterrar o problema. Contudo, quase 50 anos depois, a estrutura não se mostra tão robusta. Rachaduras visíveis no concreto indicam uma vulnerabilidade crescente, especialmente diante do avanço do nível do mar sobre as margens da ilha.
O conteúdo do domo é particularmente alarmante. Ele armazena plutônio-239, um componente de armas nucleares que mantém sua periculosidade por mais de 24 mil anos. A Ilha Runit fica a apenas 32 quilômetros de áreas habitadas, onde as comunidades utilizam a lagoa local.
Cientistas Alarmados com a Deterioração
A química Ivana Nikolic-Hughes, da Universidade Columbia, inspecionou pessoalmente as rachaduras em 2018. Suas pesquisas revelaram níveis elevados de radiação e a presença de cinco radionuclídeos significativos no solo da ilha, fora dos limites do domo.
“Considerando que o nível do mar está subindo e há indicações de que as tempestades estão se intensificando, nos preocupamos que a integridade do domo possa estar em perigo”, declarou Nikolic-Hughes ao jornalista Kyle Evans. Essa preocupação é compartilhada por Ken Buesseler, especialista em radioatividade marinha do Instituto Oceanográfico Woods Hole, que em 2020 descreveu os vazamentos como “relativamente pequenos” até então, mas ressaltou a dependência da elevação do nível do mar e da intensidade de tempestades para o fluxo de água dentro e fora do domo.
Um agravante é que a estrutura foi comprometida desde o início. A cratera nunca foi impermeabilizada, permitindo que a água subterrânea penetrasse no local, que repousa sobre um leito poroso de sedimento de coral, facilitando a disseminação de contaminantes.
Impacto das Mudanças Climáticas e a Urgência da Responsabilidade
Em 2024, uma investigação do Laboratório Nacional do Noroeste Pacífico do Departamento de Energia dos EUA confirmou que ondas de tempestade e a elevação gradual do nível do mar são os principais vetores para a dispersão de radionuclídeos pelo atol. A maior parte da Ilha Runit está a apenas 2 metros acima do nível do mar, e as projeções climáticas indicam uma elevação de 1 metro nas Ilhas Marshall até 2100, um cenário catastrófico para a região.
O domo, inicialmente concebido como uma solução provisória para resíduos de testes nucleares — alguns com magnitude mil vezes superior às bombas de Hiroshima e Nagasaki —, está agora em estágio avançado de deterioração, enquanto o oceano avança.
Ivana Nikolic-Hughes e seu colega Hart Rapaport já demandaram publicamente que os Estados Unidos assumam a responsabilidade pela limpeza adequada dos resíduos nucleares, crucial para a segurança dos residentes marshalleses. Paula Gaviria Betancur, relatora especial das Nações Unidas, contextualizou a situação em 2024: “Legados de testes nucleares e requisições de terras militares por uma potência estrangeira deslocaram centenas de marshalleses por gerações, enquanto os efeitos adversos das mudanças climáticas ameaçam deslocar milhares mais.”
O paradoxo é cruel: os próprios testes nucleares que geraram o problema podem ter contribuído para as mudanças climáticas que agora ameaçam romper o “túmulo” radioativo. Buesseler reiterou a importância de um monitoramento mais frequente para que as comunidades afetadas recebam informações diretas e precisas.
Milhares de pessoas nas Ilhas Marshall vivem sob a sombra de uma estrutura rachada, repleta de material radioativo, e cercada por um oceano em expansão, com o futuro de suas comunidades dependendo da integridade deste ‘túmulo’ improvável.