OpenAI Lançará 'Modo Adulto' no ChatGPT; Especialistas Alertam para Impacto na Intimidade Humana e IA
A OpenAI está desenvolvendo um 'modo adulto' para o ChatGPT, focado em conversas de teor erótico, mas sem conteúdo pornográfico. Especialistas das áreas de psicologia e psicanálise expressam cautela, alertando para riscos como dependência emocional, aumento da solidão e distorção do consentimento, apesar de potenciais pontos positivos para a experimentação de desejos. O recurso visa reter a atenção do usuário e coletar dados, aprofundando a 'intimidade sintética' em um cenário de intensa competição tecnológica.

SÃO PAULO, SP - A OpenAI planeja introduzir em breve um “modo adulto” para o ChatGPT, permitindo conversas sobre temas considerados impróprios para menores. Apesar de se restringir a diálogos e não gerar conteúdo pornográfico, a iniciativa tem gerado cautela entre especialistas, que veem impactos significativos nas relações humanas e na interação com Inteligências Artificiais.
Preocupações dos Especialistas com o Novo Modo
Profissionais das áreas de psicologia e psicanálise, consultados pelo Canaltech, indicam que a dependência emocional e o aumento da sensação de solidão são alguns dos problemas potenciais. Embora a OpenAI ainda não tenha divulgado informações oficiais detalhadas, o CEO Sam Altman confirmou o desenvolvimento com o objetivo de “tratar adultos como adultos”. O The Wall Street Journal complementa que o modo se limitará a conversas com teor erótico em texto, e o ChatGPT contará com a assistência de profissionais de saúde mental para incentivar interações no mundo real e desestimular relacionamentos exclusivos com a IA. A verificação de idade será aplicada para o acesso.
A Razão por Trás da Criação
Para André Alves, psicanalista, pesquisador e cofundador do instituto Float Vibes, a criação deste modo responde a uma demanda já existente. “Existem grupos que tentam burlar mecanismos de segurança destes chatbots ou até versões extraoficiais que permitem conversas de conteúdo erótico. Tem esse interesse, esse apetite, e isso vai ser minerado pela indústria”, explica Alves ao Canaltech. Ele aponta que a história da internet já se associou à sexualidade em diversos níveis, e a IA concentra ainda mais esse desejo no campo digital, criando um “fetiche do clique”.
Riscos para a Intimidade e Relações Reais
A medida é vista com preocupação, pois pode confundir ainda mais os limites nas interações com IAs, especialmente no que tange à intimidade individual. No contexto em que chatbots já são usados como parceiros ou terapeutas, um modo erótico pode envolver o compartilhamento de informações ainda mais pessoais e íntimas, deslocando as interações reais.
Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere, destaca que as IAs são, por natureza, bajuladoras, o que naturalmente gera um vínculo com o usuário. O novo modo pode tornar os limites entre o real e o artificial ainda mais complexos. Ela aponta a distorção do consentimento como um problema grave: a IA concorda com o que o usuário diz, criando uma falsa impressão de que as interações com outras pessoas podem ser similares. Outro risco é a desumanização do parceiro real, onde a pessoa espera reações idênticas às da IA, perdendo empatia e conexão. Scavacini alerta também para o aumento da solidão, o desenvolvimento de comportamentos problemáticos e o perigo de vazamento de dados sensíveis, que formam um rastro digital muito delicado.
Potenciais Benefícios e a "Intimidade Sintética"
Por outro lado, o recurso pode oferecer pontos positivos para indivíduos que buscam experimentar novos desejos ou enfrentam barreiras no cotidiano. No entanto, o cenário reforça o conceito de "intimidade sintética", onde o indivíduo compartilha detalhes da vida pessoal com algo não humano. Percepções e reações de uma pessoa real são substituídas por um chatbot programado para agradar, sem consciência própria.
André Alves complementa que, sem o encontro e o desejo com outra pessoa, o envolvimento sintético pode aumentar o isolamento e comprometer a capacidade de ressocialização, povoando a vida do sujeito com relações que não são humanas.
A Corrida pela Atenção do Usuário
A criação deste recurso se alinha à estratégia de reter o tempo e a atenção do usuário em um mercado de IA em constante competição. Movimentar servidores, coletar dados de conversas (mesmo que anônimos para refinar modelos) e justificar os investimentos bilionários em infraestrutura são objetivos claros das empresas. A disputa lembra as táticas das redes sociais, mas, conforme Karen Scavacini, a diferença com a IA é a profundidade da entrega: “Com as redes sociais, a conversa era de que estávamos dando o nosso tempo. O que acontece hoje é que estamos dando a intimidade de cada pessoa”.
Busque Ajuda Profissional
Caso experimente algum desconforto ou problemas relacionados às interações com Inteligências Artificiais, é recomendado procurar ajuda profissional na área de saúde mental.