Alerta no interior: corte de benefícios pode travar economia em 4 mil cidades
Estudo da FEA-USP aponta que estagnação de aposentadorias, Bolsa Família e BPC ameaça a renda local e pode empurrar milhões para a pobreza extrema.

BRASÍLIA, DF - A estagnação ou eventuais cortes no valor dos benefícios sociais e previdenciários representam uma ameaça direta à sustentabilidade econômica de municípios fora dos grandes centros urbanos. De acordo com um levantamento realizado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, a ausência de aumentos reais pode provocar uma retração severa na atividade econômica de cidades do interior do país.
O peso dos repasses públicos nas economias locais
O estudo aponta que aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) compõem quase metade do orçamento das famílias de menor renda. Em cerca de 4 mil dos 5.569 municípios brasileiros situados fora das regiões metropolitanas, o peso das transferências públicas chega a dobrar em comparação às capitais. No Ceará, por exemplo, os repasses correspondem a 22% da renda agregada na região metropolitana, enquanto no interior esse índice salta para 40%.
Segundo a economista e co-diretora do Made-USP, Luiza Nassif, o recurso recebido por essas famílias é revertido quase que de forma integral no consumo imediato de itens de primeira necessidade, movimentando o comércio local, preservando postos de trabalho e mantendo ativa a arrecadação dos municípios.
Queda expressiva de renda e avanço da pobreza
Projeções elaboradas pelos pesquisadores indicam que a interrupção de reajustes reais provocaria uma perda entre 6,8% e 10,8% na renda agregada do interior nacional. Os cenários mais agudos foram identificados no Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a renda total poderia retrair entre 17% e 18%. No Amazonas, Sergipe e Pernambuco, a retração estimada alcança 15%, enquanto Bahia, Alagoas, Ceará e Maranhão registrariam quedas entre 10% e 13%.
Além dos prejuízos comerciais, as simulações apontam que a ausência de ganhos reais empurraria cerca de 2,7 milhões de cidadãos para a pobreza e 2,4 milhões para a extrema pobreza fora das regiões metropolitanas, com impactos severos observados em estados populosos como Bahia, São Paulo e Minas Gerais.