Como a Geração Z de Direita Conquistou o Congresso nas Eleições de 2026
Aos 24 anos, Julia de Castro (PL-RJ) se tornou a deputada federal mais jovem do Rio, um exemplo da ascensão de políticos de direita que, nas eleições de 2026, souberam usar as redes sociais para conquistar o eleitorado jovem. O PL, em especial, capitalizou essa estratégia, ampliando significativamente sua bancada no Congresso.

BRASÍLIA, DF - As eleições de 2026 marcaram uma guinada no cenário político brasileiro, impulsionada por uma nova geração de políticos que souberam capitalizar a influência digital. Entre os nomes que se destacaram está Julia de Castro (PL-RJ), que, aos 24 anos, se tornou a deputada federal mais jovem eleita pelo Rio de Janeiro, um feito notável para quem nunca havia disputado uma eleição.
A Ascensão de Julia de Castro e o Poder das Redes Sociais
Nascida em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e historiadora formada pela Unirio, Julia de Castro rompeu com o roteiro tradicional ao buscar diretamente uma vaga na Câmara dos Deputados. Com 103.880 votos, superou veteranos como Glauber Braga (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Wladimir Garotinho (PL). Sua base de apoiadores foi construída nas redes sociais, onde, desde 2022, ela expunha as hostilidades por ser eleitora de Jair Bolsonaro (PL) e criticava a esquerda. Em 31 de agosto, pouco mais de um mês antes da eleição, Julia contava com 447 mil seguidores no Instagram, 60% deles entre 18 e 34 anos, sendo o maior grupo formado por mulheres de 25 a 34 anos.
A própria deputada eleita afirmou que sua primeira eleição foi "exitosa" por ter ocorrido no momento certo, após uma carreira construída na política digital.
O Fenômeno da Direita Jovem no Congresso
O sucesso de Julia de Castro não foi isolado. As eleições de 2026 demonstraram uma ampliação significativa da presença da direita no Congresso. O Partido Liberal (PL), por exemplo, passou de 97 para 121 deputados e elegeu 19 das 54 cadeiras do Senado em disputa. Este movimento evidenciou uma leva de políticos de direita com menos de 30 anos que construíram seu capital político nas plataformas digitais, especialmente entre jovens de até 34 anos.
Dados do Monitor Jovem DX, projeto do Instituto Democracia em Xeque em parceria com a PUC-SP, indicam que 45 dos 59 eleitos de até 29 anos para a Câmara e assembleias legislativas (76,3%) são de direita. Sete dos dez candidatos que mais geraram interações nas redes sociais foram eleitos, sendo cinco deles de direita.
Exemplos notáveis incluem Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, que com 5,6 milhões de seguidores no Instagram, bateu o recorde de votação para deputado federal em São Paulo, com mais de 3 milhões de votos; e André Fernandes (PL-CE), também de 28 anos, que reuniu 3 milhões de seguidores e foi o mais votado no Ceará, com 684 mil votos.
Estratégia Multifatorial: Redes, Partido e Financiamento
A pesquisadora Beatriz Besen, coordenadora do Monitor Jovem DX, ressalta que o bom desempenho nas redes sociais, por si só, não foi suficiente. O êxito, segundo ela, resultou da combinação de audiência digital com financiamento, apoio de lideranças, capital político familiar e experiência em disputas anteriores. Besen aponta que a direita foi o grupo político que melhor compreendeu e aplicou essa estratégia multifatorial, investindo no lançamento de candidaturas jovens com influência digital prévia.
A trajetória de Julia de Castro ilustra bem essa integração. Após ganhar tração com seus vídeos, ela participou de conferências conservadoras, foi nomeada secretária parlamentar no gabinete do deputado Luiz Lima (PL), depois assessora no gabinete de Márcio Gualberto (PL) e assumiu a vice-presidência nacional do PL Jovem. Essa vivência partidária a preparou para a candidatura de 2026.
O vínculo com a estrutura partidária se traduziu em apoio financeiro: a Direção Nacional do PL repassou R$ 500 mil à sua campanha, representando cerca de 84% do total arrecadado. Parte desse valor foi destinado ao impulsionamento de conteúdo nas redes (R$ 104,5 mil) e à militância de rua (R$ 76,1 mil).
O PL, de acordo com Besen, foi o partido que melhor identificou jovens com audiência e ofereceu condições para que essa influência se tornasse uma candidatura competitiva, articulando "visibilidade, apoio de lideranças e estrutura partidária". O resultado foi evidente: o PL elegeu 17 de 57 candidaturas jovens, cerca de 30% de aproveitamento, enquanto outros partidos como o Missão (nenhum eleito de 168) e o PT (8 de 43, 18%) tiveram desempenhos mais modestos nessa faixa etária.
Para o cientista político Nilton Sainz, da UFPR, o sucesso do PL pode ser atribuído à aposta em candidaturas personalistas, que combinam apelo nas redes, audiência própria e apoio de lideranças nacionais. Além disso, Besen destaca a comunicação mais agressiva da direita, com conteúdo de ataque e confronto, como uma estratégia eficaz para mobilizar audiência e impulsionar novos quadros.