O Segredo de Miami: Ricos Exilados Traçam Plano Pós-Regime em Cuba
Em Miami, ricos cubano-americanos, muitos cujas famílias perderam bens em 1959, articulam a "Câmara Nacional de Comércio Cubano-Americana" (Cancc). O objetivo é traçar planos detalhados para o que chamam de "dia seguinte" em Cuba, após a queda do regime, com propostas que incluem uma Bolsa de Valores e reestruturações. Eles contam com apoio da administração do Presidente Donald Trump e buscam a restituição de propriedades expropriadas, enquanto o governo cubano repudia tais ambições.

Na suntuosa mansão de um dos mais prestigiados cirurgiões plásticos de Miami, com vista para a baía de Biscayne, algumas das famílias cubano-americanas mais ricas da Flórida reúnem-se para debater o futuro de Cuba. Esta é a quarta reunião da recém-criada Câmara Nacional de Comércio Cubano-Americana (Cancc).
A Ambição de "O Dia Seguinte" em Cuba
Juan Omar Sixto, presidente da Cancc, explica que a intenção é reunir empresários cubano-americanos proeminentes do condado de Miami-Dade. O objetivo principal é "estar em Cuba assim que cair o regime", um momento que seus convidados acreditam estar próximo. A Cancc já elaborou uma proposta para uma Bolsa de Valores cubana e formou comitês para temas como infraestrutura energética e segurança alimentar, planejando a esperada era pós-comunista.
Raízes Históricas e Influência Política
Esta influente comunidade de exilados odeia o governo comunista da ilha desde que Fidel Castro (1926-2016) expropriou suas terras e nacionalizou as empresas de suas famílias em 1959. Ao longo dos anos, eles usaram sua influência política e econômica na Flórida para moldar as políticas de Washington em relação a Cuba. Sixto, que fugiu da ilha ainda adolescente, destaca que o empenho do governo do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em "forçar uma mudança radical na ilha" faz a diferença agora. Ele afirma que os empresários contam com o apoio de contatos influentes, incluindo pessoas próximas ao secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Reformas Cubanas e Ceticismo em Miami
Em resposta à campanha de "pressão máxima" de Washington, o governo cubano anunciou 176 medidas de liberalização econômica. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, declarou que as medidas visam "promover a defesa do socialismo, apoiar e ampliar a justiça social". Críticos, porém, veem essas medidas como claramente capitalistas, permitindo maior flexibilidade para empresas privadas e propriedade de múltiplas empresas. Contudo, os participantes da reunião da Cancc minimizam as reformas, qualificando-as como superficiais e sem garantias significativas para investidores.
Expectativas e Obstáculos
Analistas consideram que essas reuniões de planejamento são prematuras. O professor de história Mike Bustamante, da Universidade de Miami, aponta que as "altíssimas expectativas" de um "dia seguinte" em Cuba, geradas pelo governo americano, foram postergadas. Ele observa que, com o governo Trump imerso na "guerra contra o Irã" e próximo das eleições de meio de mandato em novembro, há pouco interesse em novas aventuras no exterior. O bloqueio do petróleo à ilha, quase interrompido desde janeiro, já tornou a vida "insuportável" para a população, mas ainda não criou condições para uma reviravolta política.
A Luta por Propriedades e a Visão de Reconstrução
Os títulos de propriedade são fundamentais para qualquer projeto de reconstrução proposto pelos cubano-americanos abastados. Juan Omar Sixto, cujo pai perdeu cinco propriedades e uma fazenda, exige restituição ou indenização, defendendo ser uma "justiça moral". Nicolás Gutiérrez, presidente da Associação Nacional de Proprietários de Engenhos Açucareiros de Cuba (organização no exílio), afirma que recuperarão as terras e as colocarão em produção, mesmo que não seja para açúcar, mas para etanol ou energia. O especialista agrícola Hugo Orizondo concorda com a necessidade de investimentos e tecnologia para a ilha.
O governo cubano, por sua vez, qualifica essas reivindicações históricas como atos de ressentimento de uma aristocracia latifundiária corrupta, que acumulou fortunas às custas de servos e escravizados. Insistem que os revolucionários não serão expulsos por seus críticos em Miami.