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O segredo por trás do 'partido' sem CNPJ que domina o Congresso

Análise do filósofo político Marcos Nobre aponta que a direita construiu uma máquina digital estruturada e hegemônica, enquanto a esquerda ainda atua de forma fragmentada.

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O segredo por trás do 'partido' sem CNPJ que domina o Congresso
Foto: Reprodução / Leia Brasil

BRASÍLIA, DF - As disputas políticas no ambiente digital evidenciam uma disparidade estratégica relevante entre os diferentes campos partidários no Brasil. De um lado, consolidou-se uma direita radical estruturada no chamado "Partido Digital Bolsonarista" (PDB), que opera com coesão a partir da própria lógica das plataformas. Do outro, observa-se uma esquerda organizada em formato de arquipélago, que ainda ensaia respostas para incorporar os algoritmos à sua dinâmica.

A constatação parte do professor de filosofia política da Unicamp e diretor-geral do Centro para Imaginação Crítica do Cebrap, Marcos Nobre. Em análise sobre o fenômeno, o pesquisador aponta que essa organização virtual não possui registro formal na Justiça Eleitoral, mas atua com hierarquia, capacidade de engajamento, agenda própria e alianças estratégicas com legendas tradicionais para acessar recursos públicos e viabilizar candidaturas.

Força parlamentar e alianças com o Centrão

Conforme os levantamentos conduzidos pelo grupo de pesquisa de Nobre, o PDB estabeleceu sua principal base institucional no Partido Liberal (PL), onde cerca de 84% dos parlamentares eleitos integram o núcleo bolsonarista, enquanto 16% pertencem ao Centrão. A presença dessa força também se distribui de maneira proporcional em outras legendas, registrando proporções de um bolsonarista para cada dois integrantes do Centrão no Podemos, e de um para nove no PSD.

Essa capilaridade permite classificar o ecossistema como o maior agrupamento em atuação no Legislativo. Figuras como o deputado Nikolas Ferreira exemplificam o modelo de lideranças que utilizam o ecossistema digital não apenas como vitrine promocional, mas como o centro de sua ação política cotidiana.

Fragmentação da oposição e futuro das lideranças

Em contraste, iniciativas da esquerda — a exemplo do canal mantido pelo deputado André Janones no WhatsApp — são caracterizadas pelo pesquisador como estratégias de curtíssimo prazo, incapazes de constituir uma arquitetura de rede permanente e descentralizada. Para Nobre, embora haja nomes pontuais que emergiram das redes sociais na oposição, não existe uma estrutura coordenada equivalente à do campo adversário.

O pesquisador ressalta ainda que o bolsonarismo se transformou em um movimento social mais amplo do que a própria família Bolsonaro. Segundo Nobre, a liderança formal hoje exercida pelos familiares do ex-presidente pode eventualmente ser ocupada por novos nomes formados dentro do próprio ecossistema digital, garantindo a continuidade do mecanismo independentemente de seus idealizadores originais.

Escrito por Redação Leia Brasil