Assentos 'De Pé' em Aviões: Entenda o Desafio de Engenharia por Trás da Inovação Proposta
A proposta dos assentos Skyrider da italiana Aviointeriors, que permitiria viagens 'quase de pé' em inclinação de 45º, prometia mais passageiros e passagens mais baratas para voos curtos. No entanto, o professor Alvaro Martins Abdalla da USP explica os profundos desafios de engenharia e segurança que tornam a implementação desses assentos em aviões comerciais como o Boeing 737 ou Airbus A320 extremamente complexa, devido à necessidade de reavaliação de múltiplos sistemas e a rigorosos requisitos de segurança.
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Quem já viajou de avião sabe como o desconforto pode ser uma constante, especialmente em voos longos na classe econômica, onde o espaço e o acolchoamento são mínimos. Mas e se a experiência a bordo fosse tão radicalmente diferente a ponto de você passar a viagem em um assento parecido com o selim de uma bicicleta, praticamente de pé?
Essa proposta inusitada, apresentada no projeto Skyrider da italiana Aviointeriors, sugeria que os passageiros ficassem com uma inclinação de cerca de 45º, apoiados em uma pequena superfície acolchoada, durante voos curtos, de até duas horas. A implementação dessa alteração permitiria acomodar até 20% mais passageiros a bordo e reduzir o preço das passagens em até 30%.
Contudo, é crucial lembrar que se trata apenas de uma proposta conceitual, cujos protótipos foram exibidos pela empresa em 2012. Em um comunicado replicado pela agência AFP, a Aviointeriors reforçou que os “assentos ‘de pé’ foram propostos como uma resposta ousada a um dos maiores desafios da indústria e, embora maximizem o espaço e a ergonomia, nunca foram pensados para serem transformados em realidade”. Mas, seria realmente possível usar assentos desse tipo em aviões?
A Engenharia por Trás dos Assentos Atuais
Pode parecer que os assentos são posicionados da forma mais apertada possível para otimizar o espaço na cabine, e há um motivo para isso. Além de maximizar o aproveitamento do ambiente interno, as poltronas são construídas com materiais mais finos para reduzir a massa e aumentar a capacidade de assentos, sem comprometer a estrutura.
O conforto não é a única prioridade. Os assentos devem ser capazes de resistir à força G mais extrema sem se soltarem e são feitos de materiais não inflamáveis, que não se deformam em caso de impacto. Isso é fundamental para agilizar a evacuação, se necessário.
O Impacto da Segurança em Cenários de Emergência
Para entender os desafios de engenharia que cercam a viabilidade dos assentos Skyrider, o CT Auto conversou com Alvaro Martins Abdalla, professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP). Ele explicou que, em um pouso de emergência, a carga dinâmica multiplica o peso do corpo, espalhando uma força extrema do tronco para a bacia do ocupante, que é então escoada pelo assento, descarregada no piso e, finalmente, na estrutura do avião.
No cenário de um pouso de emergência com assentos Skyrider, os ocupantes teriam que depender das pernas para absorver a energia do impacto. Abdalla detalhou que “o mecanismo faz com que a pelve seja retida, mas o tronco e a cabeça avançam. Sem retenção superior ou superfície dianteira adequadamente absorvedora, pode ocorrer impacto da cabeça, flexão cervical, elevada carga abdominal, rotação da pelve e escorregamento sob o cinto”.
Obstáculos Técnicos e Econômicos para o Skyrider
Segundo o professor, os assentos Skyrider precisariam de mecanismos e sistemas de absorção de energia, retenção da pelve e do tórax, além de controle das cargas transmitidas aos membros inferiores, para oferecerem a mesma proteção das poltronas tradicionais. Contudo, “assim sendo, haveria o problema do aumento de peso e custo, e isso reduziria a vantagem do conceito”, observou Abdalla.
Ele concluiu que “em minha opinião, o assento Skyrider não é uma configuração impossível. O desafio principal não seria criar uma estrutura que permaneça presa ao piso sob o fator de carga de 16 g. O desafio é controlar a maneira como o corpo desacelera [em caso de emergência]”.
A Complexidade da Integração em Aeronaves Atuais
Um exercício de imaginação sobre a incorporação de assentos desse tipo em aviões comerciais como o Boeing 737 ou o Airbus A320 revelou que a engenharia e as normas técnicas atuais não permitiriam a mudança sem uma reengenharia profunda.
Para o professor, “não se trata apenas da substituição de assentos; praticamente todos os sistemas de cabine, partes e estruturas de interior e exterior da aeronave deveriam ser reavaliados. Por exemplo, a estrutura do teto, piso e fuselagem quanto aos pontos de fixação dos assentos, as cargas teriam novos e diferentes caminhos de transmissão”.
Além disso, seriam necessários novos ensaios biomecânicos para demonstrar a proteção dos ocupantes em impactos, sem contar os ensaios de evacuação, que exigiriam o abandono completo do avião dentro do tempo já determinado pelas regulamentações.
O mais interessante da proposta do Skyrider não reside apenas na mudança da forma de viajar, mas na demonstração de como a instalação de um novo conceito de assentos — que, à primeira vista, pode parecer simples — é capaz de mudar completamente a engenharia da aeronave, que é um campo profundamente complexo. Quer saber mais sobre o que realmente faz um avião voar? Confira nossa matéria sobre a ciência por trás da aerodinâmica!