Estudo Alerta: Avatares de IA Disseminam Desinformação Política Sem Indicação Clara em Redes Sociais
Um levantamento do Observatório das Eleições, Data Privacy Brasil e Aláfia Lab revelou a existência de 18 avatares criados por inteligência artificial para comentar política nas redes sociais. Desse total, 61% operam sem qualquer indicação de sua natureza artificial, sendo 78% deles responsáveis por disseminar alegações enganosas sobre figuras políticas e instituições democráticas, como o presidente Lula e ministros do STF. Personagens como 'Dona Maria' ilustram o potencial de influência e manipulação.

SÃO PAULO, SP - Um novo estudo conduzido pelo Observatório das Eleições, em colaboração com as organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, revelou a proliferação de avatares criados por inteligência artificial (IA) nas redes sociais brasileiras, atuando como comentaristas políticos. O levantamento, que abrange o período de janeiro de 2025 a abril de 2026, identificou 18 desses personagens virtuais, com uma parcela significativa operando sem indicação de sua origem artificial.
Maioria dos Avatares Esconde sua Origem Artificial
Segundo os dados obtidos pelo g1 e pela pesquisa, 61% dos avatares identificados não possuíam qualquer sinalização de que seu conteúdo era produzido artificialmente. Esses personagens, que se apresentam como supostos eleitores, influenciadores, apresentadores ou lideranças populares, tinham sua origem artificial detectada apenas após análises técnicas detalhadas, que encontravam falhas de resolução, diferenças de proporção e elementos robotizados em áudios e imagens.
Das 18 detecções, 14 casos – equivalentes a 78% do total – continham alegações enganosas direcionadas a políticos e instituições democráticas. Entre os alvos estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.
Casos Emblemáticos: 'Dona Maria' e 'Seu Zé da Feira'
O exemplo mais proeminente é o da "Dona Maria", uma personagem artificialmente criada e retratada como uma senhora negra e idosa. Com mais de 400 vídeos publicados entre 2025 e 2026, "Dona Maria" ganhou grande repercussão ao criticar o governo federal, sendo apontada como um vetor de desinformação política pelo levantamento. Sua influência motivou uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apresentada por PT, PV e PCdoB, que solicitam a suspensão dos perfis a ela vinculados.
Curiosamente, a repercussão da "Dona Maria" gerou um efeito colateral: páginas de esquerda começaram a publicar suas próprias versões da personagem, mantendo as mesmas características físicas, mas adotando um discurso favorável ao presidente Lula. Essa reutilização demonstra a versatilidade de avatares desse tipo para propósitos opostos.
Outro personagem com alcance relevante foi o "Seu Zé da Feira", representado como um homem idoso e negro em uma feira de rua, com um discurso crítico a políticos de direita. Diferente de muitos dos casos mapeados, os vídeos de "Seu Zé da Feira" incluíam a marca d'água da ferramenta de geração de imagens Veo 3 e eram sinalizados como sintéticos pela plataforma.
Desafios na Sinalização e Credibilidade Digital
Nos sete casos em que alguma forma de sinalização existia, o padrão era inconsistente. Três avisos vieram por marcadores automáticos das plataformas, dois por marcas d'água das ferramentas de criação e outros dois por hashtags inseridas diretamente nas publicações. Para os pesquisadores, esses episódios sublinham um desafio crescente para o ambiente informacional: a criação de personagens inteiros, aparentemente humanos, produzidos com IA para influenciar debates políticos e simular opiniões espontâneas nas redes sociais, colocando em xeque a credibilidade digital.