Inteligência Artificial Revela Milhares de Hectares de Terras Agrícolas Abandonadas no Cerrado
Um estudo pioneiro da Embrapa e UnB, utilizando inteligência artificial e imagens de satélite, identificou mais de 13.000 hectares de áreas agrícolas abandonadas no Cerrado, principalmente antigas plantações de eucalipto. Os resultados, que representam a primeira avaliação desse tipo no bioma, são cruciais para orientar políticas públicas de restauração ecológica, contabilização de carbono e planejamento territorial sustentável, destacando a influência de fatores econômicos no abandono.

Mapeamento Inédito e Precisão Tecnológica
Este mapeamento detalhado representa a primeira avaliação do tipo no bioma e é visto como uma ferramenta essencial para orientar políticas públicas voltadas à restauração ecológica, à contabilização de carbono e ao planejamento territorial sustentável. O estudo foi conduzido por equipes da Embrapa Cerrados (DF), Embrapa Agricultura Digital (SP) e Embrapa Meio Ambiente (SP), em colaboração com a UnB.
A metodologia empregou imagens do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia (ESA), combinadas a técnicas avançadas de aprendizado profundo (deep learning). Por meio de uma Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN), os pesquisadores classificaram diversas categorias de uso e cobertura da terra, incluindo, de forma inédita, as áreas agrícolas abandonadas. A acurácia do mapeamento atingiu 94,7%, considerada excelente para classificações de uso da terra por sensoriamento remoto.
Principais Causas e Tipos de Abandono
O levantamento identificou que a maior parte das áreas abandonadas, cerca de 87%, corresponde a antigas plantações de eucalipto que eram destinadas à produção de carvão vegetal. Buritizeiro é uma região conhecida por suas extensas áreas de eucalipto e criação de gado bovino.
O pesquisador Edson Sano, da Embrapa Cerrados, explicou que a região enfrenta desafios produtivos, como a baixa produtividade de pastagens em períodos secos e o aumento dos custos de insumos fertilizantes, fatores que contribuem para o abandono. “A predominância do abandono em áreas de eucalipto está associada à queda da atratividade econômica da produção de carvão vegetal em função de fatores como o aumento nos custos logísticos e de produção”, pontuou Sano. Ele também ressaltou que, embora o abandono seja significativo em áreas de silvicultura, não houve abandono relevante de lavouras anuais, como soja ou milho, o que sugere que sistemas agrícolas mais intensivos mantiveram a produtividade no período analisado.
Implicações para Políticas Públicas e Restauração
Gustavo Bayma, analista da Embrapa Meio Ambiente, enfatizou que os mapas gerados podem fornecer informações espaciais detalhadas para incluir áreas subutilizadas em estratégias nacionais de restauração ambiental e mitigação das mudanças climáticas. Isso pode envolver a estimativa do potencial de sequestro de carbono ou a criação de corredores de restauração ecológica no Cerrado.
Bayma destacou a importância de políticas que estabilizem os preços de insumos agrícolas e que incentivem alternativas econômicas sustentáveis para pequenas e médias propriedades, visto que fatores econômicos são um motor crucial para o abandono de pastagens na região.
Desafios e Potencial Futuro
Apesar dos avanços, a pesquisa aponta limitações. O pesquisador Édson Bolfe, da Embrapa Agricultura Digital, mencionou que a análise se baseou em poucas datas de aquisição de imagens, o que dificulta distinguir com precisão entre abandono permanente e práticas temporárias de pousio. A validação ainda depende, em parte, da interpretação visual e do conhecimento local. Outro desafio é diferenciar pastagens degradadas de vegetação nativa por sensoriamento remoto devido a assinaturas espectrais semelhantes.
Mesmo com as limitações, o estudo comprova o potencial das tecnologias de inteligência artificial, aliadas a imagens de satélite, para mapear terras agrícolas abandonadas no Cerrado de forma robusta e precisa. Segundo Bolfe, os resultados reforçam a necessidade de incorporar áreas abandonadas em políticas ambientais e agrícolas, visando à restauração ecológica, à mitigação climática e à sustentabilidade rural.